ele não sabia. e por ele não saber me demorei uma semana presa num sentimento triste pensando no que seria, embora sentisse, nos últimos anos, que ele talvez não soubesse mesmo. mas depois daquele dia foi diferente. teve a virada e com ela veio a vida que tinha que recomeçar de outra maneira. sem espaços para dúvidas, medos, confusões. a virada veio como uma revelação, como um deságue, um desmanche de angústias. ele não me disse nada. virou vento mudo, distante, parado num tempo outro, olhando a roda girar. a falta das suas palavras veio como sempre, como um tiro a queima roupa porque dilacera rápido o que por dentro se corrói há mais tempo. elas sempre faltaram na hora que eu mais precisei. e olhe que não sou uma pessoa difícil, daquelas que não ouvem quando alguém chama. olhe que estou sempre atenta às vozes mais intransponíveis, de cores difusas, estreitas. se a mágoa se dissipasse no ar viraria raio luz tempestade pra derrubar pássaros, moinhos, uma cidade inteira. se ela se dissolvesse no mar ondas imensas nos devorariam. mas elas não mudam. elas permanecem no mesmo lugar, acesas, diurnas. na contradança a qual você me colocou, deixei a música tocar sem piano, clarinetes, violoncelos. só voz e afinação. a voz, tal qual o fio, não precisa de uma roda pra ter um caminho (traçado?) e fazer ecoar seu amor. ela é voz - fio solto, afinado - no momento em que se reinventa e refaz seu próprio chamado.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
O fio
as moiras estão ressentidas
sentadas no vão da escada
as mãos seguram o queixo
o queixo segura a vida
a vida olha uma roda
que gira gira
as moiras estão agitadas
o fio que girava girava
quase rompeu outro dia
quando a terceira disse
que a vida era questão
de sorte acaso ou azar
e quis dar fim a dor
de um pobre coitado
a segunda balançou com a cabeça
ainda não era o momento
pois a roda quem decide
quando pára
quando gira
a terceira esbravejou
com a tesoura para cima
qual fortuna que nada
sou eu quem determina
quem roda e quem fica
o fio girando girando
o destino gira junto quando a roda gira?
o fio girando rodando
o destino da gente roda roda se a roda pára?
as moiras descansam agora
mas a primeira mais jovem atrevida
colocou o fio pra fora da roda
pra fora da vida?
a terceira conhece a medida
a segunda nem desconfia
a primeira colocou o fio
pra fora da roda
pra fora da vida?
as moiras estão ressentidas
sentadas no vão da escada
as mãos seguram o queixo
o queixo segura a vida
a vida olha uma roda
que gira gira
sentadas no vão da escada
as mãos seguram o queixo
o queixo segura a vida
a vida olha uma roda
que gira gira
as moiras estão agitadas
o fio que girava girava
quase rompeu outro dia
quando a terceira disse
que a vida era questão
de sorte acaso ou azar
e quis dar fim a dor
de um pobre coitado
a segunda balançou com a cabeça
ainda não era o momento
pois a roda quem decide
quando pára
quando gira
a terceira esbravejou
com a tesoura para cima
qual fortuna que nada
sou eu quem determina
quem roda e quem fica
o fio girando girando
o destino gira junto quando a roda gira?
o fio girando rodando
o destino da gente roda roda se a roda pára?
as moiras descansam agora
mas a primeira mais jovem atrevida
colocou o fio pra fora da roda
pra fora da vida?
a terceira conhece a medida
a segunda nem desconfia
a primeira colocou o fio
pra fora da roda
pra fora da vida?
as moiras estão ressentidas
sentadas no vão da escada
as mãos seguram o queixo
o queixo segura a vida
a vida olha uma roda
que gira gira
me confundi no meio dos seus amores
eram tantas flores sem viço
amargas que fiquei plantada
no meio da estrada
com a cara meio enjoada
de quem saiu no meio da noite
e foi até a cidade comprar cigarros
mas eu não fumo
eu escrevo
eu só bebo
eu coloquei todos os pontos nos is
e desclassifiquei
todo o amor antes dele ser
um amor
confuso demais
porque abriu janelas
pra quem você jurou que não
quem você jurou que nunca mais
e mais uma vez outro dia
com a cara meio enjoada
de quem saiu pela manhã
e o sol ofuscando tudo
tropeçou no vão da vida
mas eu não vejo
eu não fumo
eu só escrevo
eu não tenho medo
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
vamos viver intensamente
mas antes deixa eu ser tudo
o que não posso e que não quero
me perturbar com todos os horrores
porque esses olhos sempre
podem mais
vamos viver intensamente
mas antes me deixe sem lentes de contato
eu não vou enxergar mais nada
de nada
ai de mim que sou só uma lente
vamos viver intensamente
mas antes me deixe aqui
prevendo meu próprio naufrágio
os barcos da marina já se foram
os prédios já tombaram todos
e meus braços jazem
amolecidos no espaço
vamos viver intensamente
mas antes eu quero
sangrar todos os tiros que vivi
e deixar que a porta se entre-abra
mais acesa e clara para os novos tempos
que virão que história que nada
mas antes deixa eu ser tudo
o que não posso e que não quero
me perturbar com todos os horrores
porque esses olhos sempre
podem mais
vamos viver intensamente
mas antes me deixe sem lentes de contato
eu não vou enxergar mais nada
de nada
ai de mim que sou só uma lente
vamos viver intensamente
mas antes me deixe aqui
prevendo meu próprio naufrágio
os barcos da marina já se foram
os prédios já tombaram todos
e meus braços jazem
amolecidos no espaço
vamos viver intensamente
mas antes eu quero
sangrar todos os tiros que vivi
e deixar que a porta se entre-abra
mais acesa e clara para os novos tempos
que virão que história que nada
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