domingo, 2 de outubro de 2016

apontamentos sobre o método

ele faz a crítica ao método
não porque não goste do método

mas porque não gosta de quem aplica o método
porque quem aplica lhe persegue
assim como a todos o perseguem
o inferno são sempre os outros
o inferno sou eu ninguém nunca

ele faz a crítica ao método
não porque não goste do método

mas apenas para tentar atingir 
uma mulher que se beneficia do método
ele nunca perguntou se o método lhe fazia bem
porque ele nunca esteve preocupado
em seu bem-estar (ele esteve preocupado apenas
em avaliar avaliar avaliar o método 
e fazer seu diagnóstico psicanalítico psicanalítico
psicanalítico travestido de machismo)

ele faz a crítica ao método
medindo o mundo com suas próprias medidas
ele que sempre disse ter alteridade
nunca
nada
só método





quinta-feira, 29 de setembro de 2016



não faça elogio ao amor

de um amor que você
nunca soube cuidar

de uma dor
que você sempre soube estar lá









uma larva incandescente
nos espera
na beira
do futuro







um verso pro futuro


não serei eu a te dizer
que meu canto se expandirá
num horizonte qualquer
você não vai me ouvir





casa difusa

eu morava numa casa
cheia de cômodos
labirintos e memórias

fotos, cartas
declarações
telefonemas
ausências

a casa era habitada por muita imaterialidade

emails difusos enviados na madrugada
nomes intercalados ao meu
gritos
mentiras
sussurros

a casa era habitada por muita inventividade

era tanta memória de outros carnavais
que um dia eu acordei já do lado de fora
próxima à porta
mais especificamente descendo as escadas

todo aquele contorno dos gestos e das vozes
das outras me circundaram e me amarraram
disseram: aqui não é o seu lugar

e aos poucos eu percebi que ali não era mesmo o meu lugar

uma casa que nunca me convidou a ficar
só poderia ser uma casa de muita imaterialidade






terça-feira, 27 de setembro de 2016






eu tô terminando minha tese
e fixando o olhar no horizonte
como quem pensa numa epígrafe












quarta-feira, 21 de setembro de 2016

sábado, 17 de setembro de 2016





de você eu não quero nem a ausência
tenha a decência de me deixar em paz











não coloquei teu nome na boca do sapo
então siga teu caminho de luz
mas te desejo uma vida de desilusão
que é preço pouco pra tudo que me fez










você me olha como quem tem sede
e não tem hora pra voltar pra casa












o que eu quero
o que eu desejo
às vezes cabe na ponta do dedo
às vezes nem mapa cabe

o alentejo 










você me diz que sou tão
que sou tão
que então eu sou
o que me diz
o que me fiz
o que me ti








vicissitude


ah que agora eu entendi tudinho
quando o corpo se ajeita
em outros corpos
o que é canto
não se faz em lá nem fá

é ré
é mi
é sol








mos(ai)co


seus pelos se misturam
com as letras do meu texto
se contorcem
se comovem
fazem em nós um arabesco 





afresco



a sua barba mal feita se ajeita
na minha face esculpida de ascendência árabe







foi só um tiquinho de nada
neca de pitibiriba
quase um susto
um ramo de flor se expandindo bem franzino
mas foi pouco
foi torto
bagatela quase zero
ninharia
patavina
dessas que a gente tem que implorar
pra ter um teco da vida
do vento
dos dias
nonada
coisa quase fim
quase um meio de mim
todo dividido 
despedaçado
um naco
uma míngua
um filete de sangue escorrendo 
agora entre os meus dentes
que vai ficar assim
um fio 
se esmorecendo
e pouco







segunda-feira, 12 de setembro de 2016

potência

nem todas as vistas vão dar pro mar
nem todas as paisagens vão te extasiar 
nem todos os lugares vão te levar à Roma
nem todos as pessoas vão te fazer gozar
nem todos os buracos vão te saciar
nem todos os desejos vão virar pó
nem todas as miradas vão te fazer querer suicidar
nem todo banco é pra você sentar
nem toda boca é pra você calar
nem toda estante tem o teu retrato
nem todo banheiro tem o teu cheiro
nem todo espelho tem o teu espelho
mas pode ser que um dia você acorde
e me veja entrando de esguelha
como quem não quer e queira
fumar um cigarro e te agradar





segunda-feira, 29 de agosto de 2016

território móvel

meu território
espaço de vida no qual piso e amplio
terra móvel que me leva e descaminha
feita de água e céu
feita de vento e chuva
e da temperatura do meu caminhar
tem arruda no meu jardim

meu caminho
espaço fluído onde se mistura
sofrimento com flor
espinho com amor
e desenterra
esse meu estado bruto de dentro
como se fosse uma pedra expandida
ou um corpo expandindo e caminhante 
pro meu fim 
que é também começo de mim

é todo dia essa destreza
é todo dia esse caminhar
me volto às origens 
do meu primeiro flanco experimentado
o dia em que olhei o mundo pela primeira vez
e quis plainar na paisagem
pra ser tudo o que não poda
eu senti uma missão profunda
de ser inteira minha
e lhe dar um pouco do que colhi das margens 
desse contorno que transborda
que é meu corpo
e é feito de uma paisagem sonora 
e carne e efeitos singelos de puro sim e não

eu tinha uma certeza de tudo
quimera!
eu tinha uma certeza de tudo
não era...

na minha boca
um passarinho veio me beijar
e era de amor que ele falava

na minha boca
um passarinho veio me trazer
uma canção engasgada 
que eu sorvi para ele não morrer

foi olhando pro alto que eu pude observar 
o seu voo abrupto
um vestígio ligeiro de alguém 
que caminha no chão e no ar
e uma brisa fresca deslocou meu corpo
para um lado e para o outro
e eu me curvei sem me quebrar
e porque eu sinto esse vento inteiro
se derrapando sob a minha pele
que eu acho que a vida também me quer












sábado, 13 de agosto de 2016

um pedido

eu quero que um dia
depois que marte retrógrado
trazer as boas novas

se desfaça essa coisa
em meu peito

e reste apenas o mar
habitando
o meu olhar


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ela enlouqueceu, diziam os vizinhos

um dia uma mulher
sentada na varanda
começou a cantar uma música 
que ninguém conhecia 

ela cantava numa 
sequência de três e

ria
ria
ria

os vizinhos não entendiam
mas já se falava em bruxaria

chamaram o médico
mas remédio ela não tomava

chamaram o padre
mas na fé ela não movia

até que um dia a mulher ficou muda
se aquietou e sumiu 
num pensamento qualquer

falavam que era quebranto
falavam que era doença
e que pegava só de olhar

decidiram então matar a mulher

entraram na casa  
ela dormindo
quando tentaram se aproximar

ela começou a cantar
bem baixinho
na sequência de três e

ria
ria
ria

todos saíram da casa
já prevendo o pior
que loucura assim
pegava só de olhar

no dia seguinte
ela sentou em sua varanda
se ajeitou em sua cadeira
não riu mais

ficou parada assim
olhando fixo no horizonte
presa num pensamento qualquer





dialética sobre o amor

não, você não soube
não, o seu amor 
não era
você sabe...

não, você não sabe
isso, você sabe
mas, agora
agora...
você acha que não
e não soube

você até queria
mas faltou
é, faltou um pouco
faltou um pouco de...
você sabe...
isso
você não soube

mas agora
agora...
você acha que não
e não soube

isso, você sabe
é, você não soube



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

tudo é política
até quando seus olhos macios
tocam
meu paladar

tudo é política
até quando eu canto
no banho
uma música do caetano

dizendo que botei na balança 
e você não pesou

ou quando minhas mãos
ativistas
acenam para o céu
pedindo alguma solução

para essas pernas
cansadas de tanta subida
ladeira que não passa

e das contas 
de tantos retrocessos

e elas insistem em ser pernas 
que caminham

e elas insistem em ser pernas 
que pululam

isso também é política
quando meu corpo
caminha 
e adormece
no caminho
e minhas pernas pululam



segunda-feira, 25 de julho de 2016

domingo, 24 de julho de 2016

eu devo uma explicação a mim mesma
e como não sei estar no mundo
de outra forma
senão escrevendo

então me aprumo
ajeito os cabelos
pronta pra me ouvir

achei que você gostaria de saber
que a travessia começou bem antes
e que não existe dentro e fora
de forma que todas as ruas de fora
são as ruas de dentro
interligadas
por um sim

e nesse trajeto você achou que chegaria a alguma terra prometida
mas chegou ao mausoléu de si mesma 
e se perdeu inteira

borrada na paisagem com a chuva 
com os olhos marinados
você chorou sua vida fraca
com suas mãos vazias
e seu corpo fraco
com seu toque sempre certeiro
mas fraco
o sino não tocou

e todo aquele protocolo
em ter começou meio e fim
aquela coisa de ter início
ficou pra depois
porque o vento passou
e seus cabelos foram jogados para trás
(reparou como gosta dessa analogia?)
numa direção qualquer

é sobre esse vento o que vim dizer
sobre a materialidade dele 
consumida no seu rosto
e no volume dos seus cabelos

quando ele te tocou
seu corpo fez um movimento outro
e você não foi mais a mesma
porque você estática
não é a mesma em movimento
seu corpo muda
suas pernas alongadas parecendo uma tesoura 
costurando uma estrada
são suas pernas 
costurando uma estrada
ou uma tesoura feita de carne

quando o vento balançou seus
cabelos para trás
eu tive a certeza de que você
somaria esse gesto 
com a paisagem que se abria, abrupta

e você sorriu
porque entendeu o indizível
pela primeira vez

e você está no meio
e o vento está no meio
numa direção qualquer









sexta-feira, 15 de julho de 2016

o amor é dádiva
dar receber retribuir

mas quando ele não retribui
o corpo se encolhe pequeno
fica ressentido 
se mutila aos poucos
foge do assunto
se afugenta em ser
um corpo encrespado
no meio de um tudo

às vezes o amor retribui um naco
aí o corpo se revolta
fica irresoluto
na mira de um tiro

quer morrer
quer fugir
quer meter

mas não morre, nem foge, nem mete

fica parado no estreito desejo 
entre ter um pouco
e ter tão pouco

às vezes o amor retribui em dobro
aí o corpo se expande 
em peso volume e medida
vira um balão
cheio de gás hélio
pra condecorar
o desejo 
ou dizer adeus





segunda-feira, 11 de julho de 2016

autorretrato

eu sou uma mulher
eu sou uma mulher

e por ser uma mulher
eu te quis

eu escrevo e vivo
e caminho 
conforme
meu corpo também repousa

eu sou assim
e amanhã posso ser outra

mas sempre serei eu mesma

com a mesma omoplata
presa na garganta
e uma história longa
de caminhos longos
de suspiros longos

o sol no alto
repousa seu calor no meu rosto
eu me sinto aquecida

posso ser egoísta pelo menos por um instante?

e por uma vida inteira?

o vento passa e me derruba
estou vulnerável a tanta sensibilidade
desse dia

eu quis um sonho 
eu sonhei

e hoje sei que fiz tudo que poderia ser feito

e hoje retorno a mim mesma
com todos os nós
desatados

com toda uma fé privilegiada
de uma crença fugidia
que eu inventei

e minha garganta 
e minha omoplata
e minha gengiva

estão todas suspensas
num corpo que eu esculpi

me seguram
me sustentam
me guardam

porque eu quero
porque eu quis



terça-feira, 28 de junho de 2016

visita


oi cum
m in
gs q 
ue br ot
ou 

f
ez ases
tre la
s c
ai rem
t oda



or
a qu


    ol
he
oc eu
  ago
ra
    ol 
he p
ram 
im

f
oi cum
m in
gs si
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carruagem

e mb ar
q ue às
t rês ho
r as nos
eu d est
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h ave r
áq ue mt
ees cu te
nab ilhe
te ria

h ave 
ria sev
ocê nã
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se des
ist ido
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a car
rua g
em

idioma simbólico

um sen
ti men
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com op
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mam or
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cad ovo
cên ãos
ab eoq
uef az
erc omu
m sen
ti men
to as
si m

segunda-feira, 27 de junho de 2016

a configuração de uma dor

pegue uma folha de papel
em branco
e escreva em pontilhado
e s s a    d o r    p l a u s í v e l

pegue uma caneta bic 
ponta fina
e contorne o pontilhado
e s s a    d o r    p l a u s í v e l

pinte com guache amarela 
ao redor

pinte flores e sóis
ao redor

pinte o meu céu meio aguado 
faça um borrão no meu mar


sexta-feira, 24 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

o sonho

podemos superar nossos sonhos
e deixar a seiva do tempo do pulso da vida
se ajustar as horas brandas
que não passam

e sermos quem jamais sonhamos
pra sermos quase super modernos
e não sermos senão aquém
de um drama

podemos ser super modernos
pra além da trapobana
se sonharmos além
quem nos revelaria?

e sermos quem jamais sonhamos
de um sonho vazado de cores
você pintando o azul
eu pintando outros sonhos


domingo, 5 de junho de 2016

a gente subia na bicicleta
e percorria a avenida

a banda cantava
a gente parava e ouvia

eu lembro das tardes de domingo
e mesmo que eu me engane 
eu acho que eram tardes calorosas

não havia grandes distâncias
não havia pensamentos confusos
a serem percorridos

por um momento
havia apenas uma grande faixa vermelha
e a gente passava por ela
como quem conhecia a cidade





quinta-feira, 26 de maio de 2016

menina do Rio

a menina amanheceu
e sobre seu corpo amanheceram trinta e três homens
que gozaram de forma diferente trinta e três vezes
e depois eles riram 
e fotografaram 
e zombaram
daquele corpo amanhecido
e então decidiram filmar
no interior da sua vagina
pra constatar que sim
se tratava de uma menina e ela tinha uma vagina
e a câmera
entrou tão profundamente
que viram que lá dentro
havia um escuro impronunciável
mas eles não se intimidaram
foram mais e mais fundo
até chegar
no fundo dos olhos de todo mundo
até todos verem
o fundo de um fundo impronunciável
de um corpo que dormia aflito
e era domingo
e nenhum foi capaz de salvá-la

terça-feira, 24 de maio de 2016

a reza

menina que passa
com os passos descalços
levantando fumaça

disse que viu

um quebranto ao lado
do seu namorado

menina que passa

com a noite dos passos
levantando um encantado

disse que viu

a boca guardando
e ouvindo um chiado

ele riu 

ele riu
ele riu

um quebranto ao lado

na noite dos passos
só pode ser vento-caído

ele riu 

ele riu
ele riu

um feitiço, um sereno

um quebranto nos passos
era vento-caído





quinta-feira, 19 de maio de 2016

não há silêncio
que fica 
na ponta 
do bico de um pássaro

quando ele pia
o ruído
se anima

bate na janela
vai e vem
pia

não há silêncio
que fica
se o bico é uma
boca cheia
de sonhos
pra voar



quinta-feira, 5 de maio de 2016

no colo de um segundo

me fizesse uma flor
então eu seria inteira
paisagem

me fizesse uma dor
então eu sou inteira
passagem

porque a corrente das águas não remove
essa tinta que tinges
em meu nome
não desmancha
esse rio que evoca
o relinchar de tantas sombras

o pássaro sobrevoa
por nossas linguagens figuradas
que de tanto querer ser
pássaro
viramos estátuas

e de dia eu me atiro
no colo de um
segundo

que passou
e se transformou
rápido demais
não me viu dormir

sábado, 30 de abril de 2016

a longa história da mulher que não era

era uma vez uma entranha
que na verdade
o homem não soube me dizer
se era uma estranha
uma aranha
ou um fantasma de dentes e unhas
na verdade quando ele me contou essa história era tão tarde
que ele começou dizendo assim "era uma vez uma entranha profunda"
e eu entendi que era uma vez uma estranha profunda
e o indaguei que não fazia sentido
que se era estranha, não era profunda
e se fosse entranha, talvez até fosse!
ele então olhou para mim
bem fundo nos meus olhos
e continuou "como eu estava dizendo
era uma vez uma aranha"



a história do homem que foi morar dentro do aquário

era uma vez um homem
que um dia acordou e quis comprar
o mapa do mundo
então ele vestiu sua melhor camisa
seu melhor sapato o relógio o perfume
e foi até a casa dos grandes mapas

lá chegando se deparou
com pequenas e grandes escalas
grandes, no caso das cartas
pequenas, no caso dos mapas
e viu que o mapa do mundo
não tinha assim tantos detalhes como imaginava
porque apesar de imenso era plano e vazio
e embora quisesse uma escala maior que o real 
não haveria papel que coubesse

então ele voltou desolado para sua casa
desenhou um peixe grande
e foi morar dentro do aquário


segunda-feira, 25 de abril de 2016

101

me perguntaram quando
eu voltaria
a dirigir na BR mais
perigosa do brasil

e se quando
ou onde
em algum lugar eu estaria

assim que saí da conveniência
o cara do posto sorriu
e um manto de poeira se levantou
em nossa direção

liguei o carro e parti
porque só escrever não basta
tem que sorrir

liguei o carro e 
na rádio o prince
levava meu último 
beijo embora

quarta-feira, 13 de abril de 2016

mudança de paradigma

para começar a olhar para o céu
não basta apenas se inclinar 
e levantar os olhos
é preciso que todo o conjunto 
dos membros superiores
como cabeça, pescoço e parte superior das costas
se desprenda da roupagem antiga
e quebrem parte dos ossos de outrora
para que enfim
você consiga 
ver o rastro deixado pela gaivota



ruídos

era uma vez uma mulher 
essa mulher gostava de ouvir ruídos
e ouviu tanto 
que seu tímpano explodiu

e de longe deu para ver o lastro que se formou
em volta da sua face
de barulhos de outrora
de bem antes
de coisas extremamente estrondosas
de coisas que se você soubesse
você não saberia

e essa mulher sem tímpano
continuava com duas orelhas
e uma face que permanecia atenta
apesar dos ruídos lá fora





domingo, 10 de abril de 2016

a volta do homem que nada entendia

era uma vez um homem que nada entendia 
e toda vez que uma galáxia lá longe explodia
ele permanecia atônito 
sem nada entender 

e dentro do seu não entendimento
continuava cozinhando a mesma comida que lhe dava asia
a beber o mesmo vinho que lhe deixava atônito
porque talvez esse fosse seu destino:
não entender e ser o homem que nada entendia

o caso do pássaro azul

era uma vez um homem que dizia
que nada entendia
e se passaram anos 
e ele continuou sem nada entender

depois se descobriu
numa clínica especializada em casos difíceis 
que na verdade 
um grande pássaro azul habitava 
no recôncavo de suas orelhas
de forma que o calor de suas asas abafavam 
todo e qualquer entendimento das coisas do mundo

quiseram arrancar o pássaro
como medida paliativa 
mas de nada adiantou
o homem já havia se acostumado 
com o bater de asas do pássaro azul

foi pedido então
que ele assinasse um termo de responsabilidade
e no que ele consentiu
o pássaro permaneceu sob seu domínio 
por longas gerações
como parte do seu próprio corpo
como parte do seu próprio mundo
como se fosse mesmo uma orelha
e ele continuou sem nada entender







um domingo difícil

era uma vez uma mulher
que começou a preparar o almoço
mas quando viu que não tinha alecrim para pôr no feijão
de repente se deparou
e viu que só tinha pedras na geladeira
foi uma confusão tremenda
quando o homem do sonho dos blocos
chegou e quis se desculpar
voltando da feira
que não tinha encontrado alecrim
nem orégano nem estragão
ela ficou perplexa
com a falta de ervas finas na geladeira
e aquele dia foi um domingo difícil


o homembloco

era um vez um homem
teve um dia que ele acordou 
e viu no espelho
que havia se transformado
num bloco gigante de pedras
na verdade parecia mais uma gruta 
cheia de calcário e linhas concretas
ele se olhou no espelho e se reconheceu 
gritou pra mulher
que estava lá embaixo 
ela subiu correndo
mas antes que pudesse enxergá-lo 
atentamente
fragmentos de concreto
começaram a se descolar do seu corpo
e a rolar por cima 
da sua cabeça 
de forma que foi impossível a chegada dela
até o topo do quarto
ela não conseguiu ver
que aquele homem
aquele homem havia se transformado 
num homem cheio de históriasblocos
que rolavam na cabeça das pessoas
como pedrinhas de arenito
e ficavam no meio da escada
de forma que era impossível
subir as escadas
sem pisar por cima de todas
e cair