domingo, 24 de julho de 2016

eu devo uma explicação a mim mesma
e como não sei estar no mundo
de outra forma
senão escrevendo

então me aprumo
ajeito os cabelos
pronta pra me ouvir

achei que você gostaria de saber
que a travessia começou bem antes
e que não existe dentro e fora
de forma que todas as ruas de fora
são as ruas de dentro
interligadas
por um sim

e nesse trajeto você achou que chegaria a alguma terra prometida
mas chegou ao mausoléu de si mesma 
e se perdeu inteira

borrada na paisagem com a chuva 
com os olhos marinados
você chorou sua vida fraca
com suas mãos vazias
e seu corpo fraco
com seu toque sempre certeiro
mas fraco
o sino não tocou

e todo aquele protocolo
em ter começou meio e fim
aquela coisa de ter início
ficou pra depois
porque o vento passou
e seus cabelos foram jogados para trás
(reparou como gosta dessa analogia?)
numa direção qualquer

é sobre esse vento o que vim dizer
sobre a materialidade dele 
consumida no seu rosto
e no volume dos seus cabelos

quando ele te tocou
seu corpo fez um movimento outro
e você não foi mais a mesma
porque você estática
não é a mesma em movimento
seu corpo muda
suas pernas alongadas parecendo uma tesoura 
costurando uma estrada
são suas pernas 
costurando uma estrada
ou uma tesoura feita de carne

quando o vento balançou seus
cabelos para trás
eu tive a certeza de que você
somaria esse gesto 
com a paisagem que se abria, abrupta

e você sorriu
porque entendeu o indizível
pela primeira vez

e você está no meio
e o vento está no meio
numa direção qualquer









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