ele não sabia. e por ele não saber me demorei uma semana presa num sentimento triste pensando no que seria, embora sentisse, nos últimos anos, que ele talvez não soubesse mesmo. mas depois daquele dia foi diferente. teve a virada e com ela veio a vida que tinha que recomeçar de outra maneira. sem espaços para dúvidas, medos, confusões. a virada veio como uma revelação, como um deságue, um desmanche de angústias. ele não me disse nada. virou vento mudo, distante, parado num tempo outro, olhando a roda girar. a falta das suas palavras veio como sempre, como um tiro a queima roupa porque dilacera rápido o que por dentro se corrói há mais tempo. elas sempre faltaram na hora que eu mais precisei. e olhe que não sou uma pessoa difícil, daquelas que não ouvem quando alguém chama. olhe que estou sempre atenta às vozes mais intransponíveis, de cores difusas, estreitas. se a mágoa se dissipasse no ar viraria raio luz tempestade pra derrubar pássaros, moinhos, uma cidade inteira. se ela se dissolvesse no mar ondas imensas nos devorariam. mas elas não mudam. elas permanecem no mesmo lugar, acesas, diurnas. na contradança a qual você me colocou, deixei a música tocar sem piano, clarinetes, violoncelos. só voz e afinação. a voz, tal qual o fio, não precisa de uma roda pra ter um caminho (traçado?) e fazer ecoar seu amor. ela é voz - fio solto, afinado - no momento em que se reinventa e refaz seu próprio chamado.
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