Da fonte dos bandeirantes jorram águas oitocentistas,
salubres, sonâmbulas. Ouço daqui os cavalos a galope,
que vieram arrastados pelos empreendimentos lá de longe;
relincham e resistem à queda d'água. Quem beber dessa água
vira monstro caolho de muitas patas, muitas patas coxas
de muito, muito, sempre muito. O mundo é sempre muito
e nos surpreende com seu golpe de machadinhas
de múltiplas pernas e braços. Meu coração que não é de papel relincha,
se esquiva e se abaixa, tenta sorver do asfalto essa última gota
que caiu do céu, mas não é chuva. Não é de hoje. É sempre muito.
Agora engole o lodo viscoso da cidade submersa pelos rios
que um dia todos navegaram. Eu naveguei, tu navegastes,
e caímos bem aqui na beira do precipício;
tinha uma placa escrito pare não pare, pare não pare, e não paramos.
Porque no fundo, lá no fundo daquele buraco de vida asfaltada
e bem vivida, tinha uma mancha escura, opulenta,
que sangrava e reluzia um fio azulado maciço e oco. Muito mais oco que maciço; incrivelmente rochoso. O lapidamos por décadas,
as duras patas, até se tornar um diamante sem brilho, mas muito duro.
Oco, duro, maciço, rochoso e escuro como a palma da mão
daqueles que sempre esquecem e molham as mãos.
Da fonte dos bandeirantes agora jorra o pó de cinzas desse diamante de chumbo; pétalas de nepalm caindo, a conta gotas; nunca olhe para cima.
A cada dois dias o pó cai na caixa d'água de toda cidade e contamina;
entra pelo quintal das casas, se você pisa o pé afunda,
abrindo fendas grandes que mais parecem um monstro de muitas patas.
Sorte de quem mora em apartamento. Dizem que lá o pó só gruda no parapeito e na vidraça, colorindo a janela com chamas de um anil esfumaçado.
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