sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O adeus da gaivota

Não é preciso mapas cartográficos para que possamos enxergar de perto
as bacias hidrográficas que se misturam e se colidem nesse rolo de papel. 
(Desdobro o mapa em cima da mesa. Vejo linhas, viagens, carros, enchentes. 
Vejo, sobretudo, meus pés, submersos em algum lago longínquo, na Índia.
Nunca fui pra Índia. Mas é lá que vejo agora meus pés mergulharem).

Não foi preciso anos de experiência em calotas polares, geleiras, lençóis freáticos, rios e lagos e oceanos para aprender a desenhar um rio com peixes como fiz aos sete anos. Na época, os peixes saltavam para fora do rio e tinham todas as cores do mundo. Naquela época, a água doce representava 2,5% de toda água consumida no planeta. Hoje ela representa 2,5% de toda água consumida no planeta. A mesma água que correu nas veias de Luzia hoje corre nas minhas. Mas muita mais ferrosa.

Não é preciso saber mas é melhor sabê-lo. Que toda água da chuva que cai nas proximidades ou num raio de até 200 metros da minha casa entra pela calha e se acumula num cilíndrico volumoso até despencar por inteira pela corrente enferrujada que prendi no alto do telhado até o chão, para que a mesma percorresse esse caminho, sem sobrecarregar a calha. 

Fecho o mapa e com ele, toda a água desenhada na superfície em escalas reduzidas se movem e me banham com ondas calmas em algum lugar longínquo, na Índia. Movo meus pés para o alto mas eles já estão crivados, submersos pelas correntes frias do lago. No alto, uma gaivota diz adeus.



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