Fecho a porta sem pressa, virando a chave no sentido horário. Já é tarde.
Olho para baixo e avisto os meus pés. Estão frios como o azulejo frio.
Passo os olhos rapidamente pelo espelho. Pego um pente, me penteio: para trás, para frente, para trás. Faço um coque. Olho novamente meus pés. Estão nus.
No sentido anti-horário abro o chuveiro e um filete de água quente
escorre quase flertando com meu corpo. Olho para baixo; os joelhos
não se tocam. Não ia lavar o cabelo, mas molhou um pouco as pontas,
de forma que agora desfaço o coque, abro mais o chuveiro, elevo meus
braços na altura da cabeça e com as pontas dos dedos, totalmente arqueadas,
massageio suavemente o couro cabeludo até sentir que todos os fios
estão submersos de água, suavemente até sentir finalmente que todos
os meus fios estão submersos. Daí desligo. Passo o xampu. Espero um minuto.
Cortei os cabelos. Faz quinze dias que cortei os cabelos. Agora,
no banho, lavá-los fica mais fácil, pois só elevo meus braços
na altura da cabeça fazendo os movimentos circulares de outrora, mas
tudo em dois minutos. Às vezes esqueço e coloco mais xampu que
o necessário; às vezes esqueço e não coloco nada. Quando isso acontece,
o cabelo fica mais difícil de pentear. Aí prendo e faço um coque.
Não gosto de abrir a porta logo após terminado o banho. Gosto de aproveitar
o vapor quente que fica, mantendo o ar temporariamente aquecido em volta.
Dilatando os poros da pele. Amaciando cada camada da minha epiderme.
Até o vapor se dissipar completamente quero ter a certeza de que todos
os meus poros estarão dilatados para receber alguma coisa. Quero sentir que
precisam receber alguma coisa. É quando eu abro a porta, abruptamente,
e uma corrente de ar mais fria passa e resseca meu rosto com o seu deslize.
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