sábado, 30 de abril de 2016

a longa história da mulher que não era

era uma vez uma entranha
que na verdade
o homem não soube me dizer
se era uma estranha
uma aranha
ou um fantasma de dentes e unhas
na verdade quando ele me contou essa história era tão tarde
que ele começou dizendo assim "era uma vez uma entranha profunda"
e eu entendi que era uma vez uma estranha profunda
e o indaguei que não fazia sentido
que se era estranha, não era profunda
e se fosse entranha, talvez até fosse!
ele então olhou para mim
bem fundo nos meus olhos
e continuou "como eu estava dizendo
era uma vez uma aranha"



a história do homem que foi morar dentro do aquário

era uma vez um homem
que um dia acordou e quis comprar
o mapa do mundo
então ele vestiu sua melhor camisa
seu melhor sapato o relógio o perfume
e foi até a casa dos grandes mapas

lá chegando se deparou
com pequenas e grandes escalas
grandes, no caso das cartas
pequenas, no caso dos mapas
e viu que o mapa do mundo
não tinha assim tantos detalhes como imaginava
porque apesar de imenso era plano e vazio
e embora quisesse uma escala maior que o real 
não haveria papel que coubesse

então ele voltou desolado para sua casa
desenhou um peixe grande
e foi morar dentro do aquário


segunda-feira, 25 de abril de 2016

101

me perguntaram quando
eu voltaria
a dirigir na BR mais
perigosa do brasil

e se quando
ou onde
em algum lugar eu estaria

assim que saí da conveniência
o cara do posto sorriu
e um manto de poeira se levantou
em nossa direção

liguei o carro e parti
porque só escrever não basta
tem que sorrir

liguei o carro e 
na rádio o prince
levava meu último 
beijo embora

quarta-feira, 13 de abril de 2016

mudança de paradigma

para começar a olhar para o céu
não basta apenas se inclinar 
e levantar os olhos
é preciso que todo o conjunto 
dos membros superiores
como cabeça, pescoço e parte superior das costas
se desprenda da roupagem antiga
e quebrem parte dos ossos de outrora
para que enfim
você consiga 
ver o rastro deixado pela gaivota



ruídos

era uma vez uma mulher 
essa mulher gostava de ouvir ruídos
e ouviu tanto 
que seu tímpano explodiu

e de longe deu para ver o lastro que se formou
em volta da sua face
de barulhos de outrora
de bem antes
de coisas extremamente estrondosas
de coisas que se você soubesse
você não saberia

e essa mulher sem tímpano
continuava com duas orelhas
e uma face que permanecia atenta
apesar dos ruídos lá fora





domingo, 10 de abril de 2016

a volta do homem que nada entendia

era uma vez um homem que nada entendia 
e toda vez que uma galáxia lá longe explodia
ele permanecia atônito 
sem nada entender 

e dentro do seu não entendimento
continuava cozinhando a mesma comida que lhe dava asia
a beber o mesmo vinho que lhe deixava atônito
porque talvez esse fosse seu destino:
não entender e ser o homem que nada entendia

o caso do pássaro azul

era uma vez um homem que dizia
que nada entendia
e se passaram anos 
e ele continuou sem nada entender

depois se descobriu
numa clínica especializada em casos difíceis 
que na verdade 
um grande pássaro azul habitava 
no recôncavo de suas orelhas
de forma que o calor de suas asas abafavam 
todo e qualquer entendimento das coisas do mundo

quiseram arrancar o pássaro
como medida paliativa 
mas de nada adiantou
o homem já havia se acostumado 
com o bater de asas do pássaro azul

foi pedido então
que ele assinasse um termo de responsabilidade
e no que ele consentiu
o pássaro permaneceu sob seu domínio 
por longas gerações
como parte do seu próprio corpo
como parte do seu próprio mundo
como se fosse mesmo uma orelha
e ele continuou sem nada entender







um domingo difícil

era uma vez uma mulher
que começou a preparar o almoço
mas quando viu que não tinha alecrim para pôr no feijão
de repente se deparou
e viu que só tinha pedras na geladeira
foi uma confusão tremenda
quando o homem do sonho dos blocos
chegou e quis se desculpar
voltando da feira
que não tinha encontrado alecrim
nem orégano nem estragão
ela ficou perplexa
com a falta de ervas finas na geladeira
e aquele dia foi um domingo difícil


o homembloco

era um vez um homem
teve um dia que ele acordou 
e viu no espelho
que havia se transformado
num bloco gigante de pedras
na verdade parecia mais uma gruta 
cheia de calcário e linhas concretas
ele se olhou no espelho e se reconheceu 
gritou pra mulher
que estava lá embaixo 
ela subiu correndo
mas antes que pudesse enxergá-lo 
atentamente
fragmentos de concreto
começaram a se descolar do seu corpo
e a rolar por cima 
da sua cabeça 
de forma que foi impossível a chegada dela
até o topo do quarto
ela não conseguiu ver
que aquele homem
aquele homem havia se transformado 
num homem cheio de históriasblocos
que rolavam na cabeça das pessoas
como pedrinhas de arenito
e ficavam no meio da escada
de forma que era impossível
subir as escadas
sem pisar por cima de todas
e cair




o mesmo homem do sonho dos blocos mas agora numa outra aventura

era uma vez um homem
o mesmo homem do sonho dos blocos
um dia ele acordou de madrugada
para escrever uma carta
e passou quase três anos escrevendo
a mesma carta extensa 
tão extensa
que ela atravessou
a grande pista de avião 
e quase se suicidou
no mar jônico

na carta havia um texto 
longínquo
de eras longínquas
e depois que a carta aportou finalmente
na bancada de areia 
tentando respirar
todas as gaivotas da ilha 
partiram para buscar penélope
e avisar que a carta havia enfim chegado
mas que as palavras 
se confundiam com
o salgado do mar
e com o salgado
de todos os corpos



os blocos e um sonho

era uma vez um homem
ele dormia 
e em suspenso
dormiam os blocos de arenito do seu passado

um dia ele acordou
e sentiu que um bloco havia caído 
em cima da sua cabeça

havia muito sangue
e havia também uma mulher 
que não estava no sonho 
mas fazia parte mas não daquele que ele disse que uma vez
havia sonhado não no sonho dos blocos
num outro sonho mais possível
com menos arenito e um pouco mais de sal

e havia muito sangue como eu disse
antes de dizer que havia também uma mulher
e esse sangue escorreu grosso e disforme
pelos sulcos do seu rosto e adentrou
na sua boca
que estava semi-cerrada
de forma que ele não conseguiu sentir
o gosto verdadeiro

no dia seguinte
mais blocos daqueles começaram a despencar
e a solução que ele encontrou
foi mudar de casa
porque numa outra casa 
ele pensou
os blocos não despencariam
com tanta força

uma pedra quase matou um caminhão

as pedras estavam todas 
sobrepostas
escondendo um aviso real
estavam no meio da avenida
e não souberam desviar
do caminhão que vinha

de uma outra cidade
de uma outra distância
e por quase um descuido
não deixou que sua carga
toda se esvaísse
líquida no acostamento

as pedras estavam todas
sobrepostas
se estivessem todas alinhadas
como um cordão da esperança
não haveria caminhão
nem carga
nem acostamento
nem linha
nem mentira
nem cordão
nem vida
nem cinismo

a grande avenida

seus dentes cerrados
carregando grandes
palavras
atravessaram
a grande avenida principal
para aqui repousarem
modestamente
na minha boca

os infortúnios

todos
repousam do lado de fora
aqui dentro
não há
marcas nem espaço para o cinismo

em vão

todos os atropelos se esvaem
em vão 
todo o recomeço de ser
quem nunca

não existe má-fé

não existe mais fé

nos infortúnios

que pecam em guiar
nossas estradas
que a despeito do que você disse
não estavam limpas de pedras