quinta-feira, 29 de setembro de 2016



não faça elogio ao amor

de um amor que você
nunca soube cuidar

de uma dor
que você sempre soube estar lá









uma larva incandescente
nos espera
na beira
do futuro







um verso pro futuro


não serei eu a te dizer
que meu canto se expandirá
num horizonte qualquer
você não vai me ouvir





casa difusa

eu morava numa casa
cheia de cômodos
labirintos e memórias

fotos, cartas
declarações
telefonemas
ausências

a casa era habitada por muita imaterialidade

emails difusos enviados na madrugada
nomes intercalados ao meu
gritos
mentiras
sussurros

a casa era habitada por muita inventividade

era tanta memória de outros carnavais
que um dia eu acordei já do lado de fora
próxima à porta
mais especificamente descendo as escadas

todo aquele contorno dos gestos e das vozes
das outras me circundaram e me amarraram
disseram: aqui não é o seu lugar

e aos poucos eu percebi que ali não era mesmo o meu lugar

uma casa que nunca me convidou a ficar
só poderia ser uma casa de muita imaterialidade






terça-feira, 27 de setembro de 2016






eu tô terminando minha tese
e fixando o olhar no horizonte
como quem pensa numa epígrafe












quarta-feira, 21 de setembro de 2016

sábado, 17 de setembro de 2016





de você eu não quero nem a ausência
tenha a decência de me deixar em paz











não coloquei teu nome na boca do sapo
então siga teu caminho de luz
mas te desejo uma vida de desilusão
que é preço pouco pra tudo que me fez










você me olha como quem tem sede
e não tem hora pra voltar pra casa












o que eu quero
o que eu desejo
às vezes cabe na ponta do dedo
às vezes nem mapa cabe

o alentejo 










você me diz que sou tão
que sou tão
que então eu sou
o que me diz
o que me fiz
o que me ti








vicissitude


ah que agora eu entendi tudinho
quando o corpo se ajeita
em outros corpos
o que é canto
não se faz em lá nem fá

é ré
é mi
é sol








mos(ai)co


seus pelos se misturam
com as letras do meu texto
se contorcem
se comovem
fazem em nós um arabesco 





afresco



a sua barba mal feita se ajeita
na minha face esculpida de ascendência árabe







foi só um tiquinho de nada
neca de pitibiriba
quase um susto
um ramo de flor se expandindo bem franzino
mas foi pouco
foi torto
bagatela quase zero
ninharia
patavina
dessas que a gente tem que implorar
pra ter um teco da vida
do vento
dos dias
nonada
coisa quase fim
quase um meio de mim
todo dividido 
despedaçado
um naco
uma míngua
um filete de sangue escorrendo 
agora entre os meus dentes
que vai ficar assim
um fio 
se esmorecendo
e pouco







segunda-feira, 12 de setembro de 2016

potência

nem todas as vistas vão dar pro mar
nem todas as paisagens vão te extasiar 
nem todos os lugares vão te levar à Roma
nem todos as pessoas vão te fazer gozar
nem todos os buracos vão te saciar
nem todos os desejos vão virar pó
nem todas as miradas vão te fazer querer suicidar
nem todo banco é pra você sentar
nem toda boca é pra você calar
nem toda estante tem o teu retrato
nem todo banheiro tem o teu cheiro
nem todo espelho tem o teu espelho
mas pode ser que um dia você acorde
e me veja entrando de esguelha
como quem não quer e queira
fumar um cigarro e te agradar