eu morava numa casa
cheia de cômodos
labirintos e memórias
fotos, cartas
declarações
telefonemas
ausências
a casa era habitada por muita imaterialidade
emails difusos enviados na madrugada
nomes intercalados ao meu
gritos
mentiras
sussurros
a casa era habitada por muita inventividade
era tanta memória de outros carnavais
que um dia eu acordei já do lado de fora
próxima à porta
mais especificamente descendo as escadas
todo aquele contorno dos gestos e das vozes
das outras me circundaram e me amarraram
disseram: aqui não é o seu lugar
e aos poucos eu percebi que ali não era mesmo o meu lugar
uma casa que nunca me convidou a ficar
só poderia ser uma casa de muita imaterialidade