segunda-feira, 25 de julho de 2016

domingo, 24 de julho de 2016

eu devo uma explicação a mim mesma
e como não sei estar no mundo
de outra forma
senão escrevendo

então me aprumo
ajeito os cabelos
pronta pra me ouvir

achei que você gostaria de saber
que a travessia começou bem antes
e que não existe dentro e fora
de forma que todas as ruas de fora
são as ruas de dentro
interligadas
por um sim

e nesse trajeto você achou que chegaria a alguma terra prometida
mas chegou ao mausoléu de si mesma 
e se perdeu inteira

borrada na paisagem com a chuva 
com os olhos marinados
você chorou sua vida fraca
com suas mãos vazias
e seu corpo fraco
com seu toque sempre certeiro
mas fraco
o sino não tocou

e todo aquele protocolo
em ter começou meio e fim
aquela coisa de ter início
ficou pra depois
porque o vento passou
e seus cabelos foram jogados para trás
(reparou como gosta dessa analogia?)
numa direção qualquer

é sobre esse vento o que vim dizer
sobre a materialidade dele 
consumida no seu rosto
e no volume dos seus cabelos

quando ele te tocou
seu corpo fez um movimento outro
e você não foi mais a mesma
porque você estática
não é a mesma em movimento
seu corpo muda
suas pernas alongadas parecendo uma tesoura 
costurando uma estrada
são suas pernas 
costurando uma estrada
ou uma tesoura feita de carne

quando o vento balançou seus
cabelos para trás
eu tive a certeza de que você
somaria esse gesto 
com a paisagem que se abria, abrupta

e você sorriu
porque entendeu o indizível
pela primeira vez

e você está no meio
e o vento está no meio
numa direção qualquer









sexta-feira, 15 de julho de 2016

o amor é dádiva
dar receber retribuir

mas quando ele não retribui
o corpo se encolhe pequeno
fica ressentido 
se mutila aos poucos
foge do assunto
se afugenta em ser
um corpo encrespado
no meio de um tudo

às vezes o amor retribui um naco
aí o corpo se revolta
fica irresoluto
na mira de um tiro

quer morrer
quer fugir
quer meter

mas não morre, nem foge, nem mete

fica parado no estreito desejo 
entre ter um pouco
e ter tão pouco

às vezes o amor retribui em dobro
aí o corpo se expande 
em peso volume e medida
vira um balão
cheio de gás hélio
pra condecorar
o desejo 
ou dizer adeus





segunda-feira, 11 de julho de 2016

autorretrato

eu sou uma mulher
eu sou uma mulher

e por ser uma mulher
eu te quis

eu escrevo e vivo
e caminho 
conforme
meu corpo também repousa

eu sou assim
e amanhã posso ser outra

mas sempre serei eu mesma

com a mesma omoplata
presa na garganta
e uma história longa
de caminhos longos
de suspiros longos

o sol no alto
repousa seu calor no meu rosto
eu me sinto aquecida

posso ser egoísta pelo menos por um instante?

e por uma vida inteira?

o vento passa e me derruba
estou vulnerável a tanta sensibilidade
desse dia

eu quis um sonho 
eu sonhei

e hoje sei que fiz tudo que poderia ser feito

e hoje retorno a mim mesma
com todos os nós
desatados

com toda uma fé privilegiada
de uma crença fugidia
que eu inventei

e minha garganta 
e minha omoplata
e minha gengiva

estão todas suspensas
num corpo que eu esculpi

me seguram
me sustentam
me guardam

porque eu quero
porque eu quis