sábado, 29 de novembro de 2014
sábado, 22 de novembro de 2014
eram três da manhã. liguei a tv, volume baixo, canal qualquer. ia passando um pelo outro, o quarto escuro, as imagens tomando forma na parede. parei num filme preto e branco. um homem de meia idade e uma jovem debaixo de uma árvore. as imagens se intercalavam, ele lembrando algo, ela sorrindo. seu semblante sereno, seus cabelos soltos. um amor talvez pronto a despistá-los. apertei o mute. às vezes prefiro imaginar o que as personagens poderiam dizer se acaso fosse o caso de imaginá-los fazendo qualquer coisa. então pensei que poderiam estar conversando sobre um filme que assistiram juntos semana passada. mas isso não parecia ser muito verossímil. então imaginei que o homem passara na bilheteria numa quarta-feira, após o almoço e comprara dois bilhetes, dois lugares, um ao lado do outro, para a estréia do filme amor, sublime amor e depois, contente e efusivo, marcara de se encontrar com sua suposta namorada após seu trabalho. ao caminharem juntos pela avenida principal da cidade, ele nervoso, olhos inquietos, pergunta se aceita o convite. ela reluta, diz que talvez seja cedo demais, mas no final das contas aceita. depois de assistirem o filme, mão sobre mão, resolvem se encontrar novamente e escolhem um parque, com árvores, bichos, sol. e lá estão, debaixo de uma árvore conversando sobre o filme que assistiram semana passada. dou voltas e mais voltas, entro na mesma ação. desaperto o mute. o diálogo que ouço é mais ou menos assim. ele: sabe que gostei do seu sorriso desde a primeira vez que te vi? (ela sorri timidamente, abaixa os olhos, pega na barra da saia). ele: lembra quando eramos criança e brincávamos no quintal da sua casa? (a imagem brinca no local). ela: acho que vai chover, vamos voltar para casa. eles levantam, pegam suas coisas e vão embora. aperto o mute novamente. imagino de novo a mesma cena. os dois sentados debaixo de uma árvore, conversando. o diálogo é mais ou menos esse. ela: sabe de uma coisa? está frio e acho que vou dar uma passada na casa do john. ela se levanta, pega suas coisas e sai.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
olhai os lírios do campo
até o horizonte se transmutar
em serpente e te engolir
inteira,
como um mito
na canoa
os araweté
ainda vivem
os araweté
ainda vivem
no início
era o infinito
e os lírios
uma metáfora para todas as bocas
e o campo
uma metáfora para mim mesma
e o horizonte
uma beirada da terra escorregadia
e o horizonte
uma beirada da terra escorregadia
que num deslize
te leva ao subterrâneo
do subterrâneo
do subterrâneo
da dor
lá não há lírio nem campo nem precipício
nem cruzes nem moradas
lá o tempo se faz pelas pedras
e o vento te leva a ser um pássaro
que do alto da sua mirada
vê em mim um ponto de partida
ou um ponto de vista
te leva ao subterrâneo
do subterrâneo
do subterrâneo
da dor
lá não há lírio nem campo nem precipício
nem cruzes nem moradas
lá o tempo se faz pelas pedras
e o vento te leva a ser um pássaro
que do alto da sua mirada
vê em mim um ponto de partida
ou um ponto de vista
terça-feira, 11 de novembro de 2014
quilos e mais quilos de nomes e cercas fazem dela aquilo que não sabe ao certo se é. passam-se os anos, e as questões não mudam. a forma e o conteúdo. arrisco dizer que a forma, mais que tudo. e se sonha com conchas e viagens desfeitas no meio do caminho, já não pode mais sonhar. e se espera que a concha se abra ininterruptamente aos seus olhos, brilhando mais que o círculo de pedra, a pérola irresoluta. essa narrativa que se abre e se esconde, brincando de me pegar. a terapeuta diz que é fuga. eu me arrumo, passo o batom, relembro das contas, das mágoas e do trabalho. toda semana, na hora certa estou no consultório. deve ser fuga mesmo, mas dessa vida na passa. ela diz que é coisa da família, mãe, avó, a casa inteira. essa filiação materna não deve ter dado muito certo mesmo. eu tento entender, reluto, me acalmo. não quero tomar calmantes. minha avó paterna morreu de cirrose de tanto tomar remédios. aprendi com meu pai a não engolir pílulas, só desaforos. pergunta do trabalho. tudo certo. pergunta de novo. tudo errado, mas não quero falar disso agora. e os planos pro futuro? uma tese e um livro sem muitas expectativas. porque hoje em dia tudo se ajeita, você monta um blog e pronto. só que ninguém vai ler. tudo bem também porque ninguém compra livros. só os amigos. mas esses são poucos. acho que você está deprimida. o mal do século. mas não te culpo, a vida é assim. aprende essa técnica, inspira e expira. nove vezes. ajuda bastante, sempre que estiver com vontade de sumir. e semana que vem você pode em qual horário? toma, não esquece a caixa de lenços. eu abro a porta pra você. o elevador quebrou, se quiser ir de escada. ou pega o de serviço mesmo. peguei o de serviço. dois minutos até chegar ao térreo. lá embaixo, saindo do prédio, o sol ofuscou por completo o meu rosto. fiquei sem reação. um carro passou voando e gritou "delícia". fiquei sem reação também. fui embora pensando no tamanho do sol. da estrela gigante engolindo tudo, sem reação.
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