eram três da manhã. liguei a tv, volume baixo, canal qualquer. ia passando um pelo outro, o quarto escuro, as imagens tomando forma na parede. parei num filme preto e branco. um homem de meia idade e uma jovem debaixo de uma árvore. as imagens se intercalavam, ele lembrando algo, ela sorrindo. seu semblante sereno, seus cabelos soltos. um amor talvez pronto a despistá-los. apertei o mute. às vezes prefiro imaginar o que as personagens poderiam dizer se acaso fosse o caso de imaginá-los fazendo qualquer coisa. então pensei que poderiam estar conversando sobre um filme que assistiram juntos semana passada. mas isso não parecia ser muito verossímil. então imaginei que o homem passara na bilheteria numa quarta-feira, após o almoço e comprara dois bilhetes, dois lugares, um ao lado do outro, para a estréia do filme amor, sublime amor e depois, contente e efusivo, marcara de se encontrar com sua suposta namorada após seu trabalho. ao caminharem juntos pela avenida principal da cidade, ele nervoso, olhos inquietos, pergunta se aceita o convite. ela reluta, diz que talvez seja cedo demais, mas no final das contas aceita. depois de assistirem o filme, mão sobre mão, resolvem se encontrar novamente e escolhem um parque, com árvores, bichos, sol. e lá estão, debaixo de uma árvore conversando sobre o filme que assistiram semana passada. dou voltas e mais voltas, entro na mesma ação. desaperto o mute. o diálogo que ouço é mais ou menos assim. ele: sabe que gostei do seu sorriso desde a primeira vez que te vi? (ela sorri timidamente, abaixa os olhos, pega na barra da saia). ele: lembra quando eramos criança e brincávamos no quintal da sua casa? (a imagem brinca no local). ela: acho que vai chover, vamos voltar para casa. eles levantam, pegam suas coisas e vão embora. aperto o mute novamente. imagino de novo a mesma cena. os dois sentados debaixo de uma árvore, conversando. o diálogo é mais ou menos esse. ela: sabe de uma coisa? está frio e acho que vou dar uma passada na casa do john. ela se levanta, pega suas coisas e sai.
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