quilos e mais quilos de nomes e cercas fazem dela aquilo que não sabe ao certo se é. passam-se os anos, e as questões não mudam. a forma e o conteúdo. arrisco dizer que a forma, mais que tudo. e se sonha com conchas e viagens desfeitas no meio do caminho, já não pode mais sonhar. e se espera que a concha se abra ininterruptamente aos seus olhos, brilhando mais que o círculo de pedra, a pérola irresoluta. essa narrativa que se abre e se esconde, brincando de me pegar. a terapeuta diz que é fuga. eu me arrumo, passo o batom, relembro das contas, das mágoas e do trabalho. toda semana, na hora certa estou no consultório. deve ser fuga mesmo, mas dessa vida na passa. ela diz que é coisa da família, mãe, avó, a casa inteira. essa filiação materna não deve ter dado muito certo mesmo. eu tento entender, reluto, me acalmo. não quero tomar calmantes. minha avó paterna morreu de cirrose de tanto tomar remédios. aprendi com meu pai a não engolir pílulas, só desaforos. pergunta do trabalho. tudo certo. pergunta de novo. tudo errado, mas não quero falar disso agora. e os planos pro futuro? uma tese e um livro sem muitas expectativas. porque hoje em dia tudo se ajeita, você monta um blog e pronto. só que ninguém vai ler. tudo bem também porque ninguém compra livros. só os amigos. mas esses são poucos. acho que você está deprimida. o mal do século. mas não te culpo, a vida é assim. aprende essa técnica, inspira e expira. nove vezes. ajuda bastante, sempre que estiver com vontade de sumir. e semana que vem você pode em qual horário? toma, não esquece a caixa de lenços. eu abro a porta pra você. o elevador quebrou, se quiser ir de escada. ou pega o de serviço mesmo. peguei o de serviço. dois minutos até chegar ao térreo. lá embaixo, saindo do prédio, o sol ofuscou por completo o meu rosto. fiquei sem reação. um carro passou voando e gritou "delícia". fiquei sem reação também. fui embora pensando no tamanho do sol. da estrela gigante engolindo tudo, sem reação.
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