Não é preciso mapas cartográficos para que possamos enxergar de perto
as bacias hidrográficas que se misturam e se colidem nesse rolo de papel.
(Desdobro o mapa em cima da mesa. Vejo linhas, viagens, carros, enchentes.
Vejo, sobretudo, meus pés, submersos em algum lago longínquo, na Índia.
Nunca fui pra Índia. Mas é lá que vejo agora meus pés mergulharem).
Não foi preciso anos de experiência em calotas polares, geleiras, lençóis freáticos, rios e lagos e oceanos para aprender a desenhar um rio com peixes como fiz aos sete anos. Na época, os peixes saltavam para fora do rio e tinham todas as cores do mundo. Naquela época, a água doce representava 2,5% de toda água consumida no planeta. Hoje ela representa 2,5% de toda água consumida no planeta. A mesma água que correu nas veias de Luzia hoje corre nas minhas. Mas muita mais ferrosa.
Não é preciso saber mas é melhor sabê-lo. Que toda água da chuva que cai nas proximidades ou num raio de até 200 metros da minha casa entra pela calha e se acumula num cilíndrico volumoso até despencar por inteira pela corrente enferrujada que prendi no alto do telhado até o chão, para que a mesma percorresse esse caminho, sem sobrecarregar a calha.
Fecho o mapa e com ele, toda a água desenhada na superfície em escalas reduzidas se movem e me banham com ondas calmas em algum lugar longínquo, na Índia. Movo meus pés para o alto mas eles já estão crivados, submersos pelas correntes frias do lago. No alto, uma gaivota diz adeus.
Fecho a porta sem pressa, virando a chave no sentido horário. Já é tarde.
Olho para baixo e avisto os meus pés. Estão frios como o azulejo frio.
Passo os olhos rapidamente pelo espelho. Pego um pente, me penteio: para trás, para frente, para trás. Faço um coque. Olho novamente meus pés. Estão nus.
No sentido anti-horário abro o chuveiro e um filete de água quente
escorre quase flertando com meu corpo. Olho para baixo; os joelhos
não se tocam. Não ia lavar o cabelo, mas molhou um pouco as pontas,
de forma que agora desfaço o coque, abro mais o chuveiro, elevo meus
braços na altura da cabeça e com as pontas dos dedos, totalmente arqueadas,
massageio suavemente o couro cabeludo até sentir que todos os fios
estão submersos de água, suavemente até sentir finalmente que todos
os meus fios estão submersos. Daí desligo. Passo o xampu. Espero um minuto.
Cortei os cabelos. Faz quinze dias que cortei os cabelos. Agora,
no banho, lavá-los fica mais fácil, pois só elevo meus braços
na altura da cabeça fazendo os movimentos circulares de outrora, mas
tudo em dois minutos. Às vezes esqueço e coloco mais xampu que
o necessário; às vezes esqueço e não coloco nada. Quando isso acontece,
o cabelo fica mais difícil de pentear. Aí prendo e faço um coque.
Não gosto de abrir a porta logo após terminado o banho. Gosto de aproveitar
o vapor quente que fica, mantendo o ar temporariamente aquecido em volta.
Dilatando os poros da pele. Amaciando cada camada da minha epiderme.
Até o vapor se dissipar completamente quero ter a certeza de que todos
os meus poros estarão dilatados para receber alguma coisa. Quero sentir que
precisam receber alguma coisa. É quando eu abro a porta, abruptamente,
e uma corrente de ar mais fria passa e resseca meu rosto com o seu deslize.
Da fonte dos bandeirantes jorram águas oitocentistas,
salubres, sonâmbulas. Ouço daqui os cavalos a galope,
que vieram arrastados pelos empreendimentos lá de longe;
relincham e resistem à queda d'água. Quem beber dessa água
vira monstro caolho de muitas patas, muitas patas coxas
de muito, muito, sempre muito. O mundo é sempre muito
e nos surpreende com seu golpe de machadinhas
de múltiplas pernas e braços. Meu coração que não é de papel relincha,
se esquiva e se abaixa, tenta sorver do asfalto essa última gota
que caiu do céu, mas não é chuva. Não é de hoje. É sempre muito.
Agora engole o lodo viscoso da cidade submersa pelos rios
que um dia todos navegaram. Eu naveguei, tu navegastes,
e caímos bem aqui na beira do precipício;
tinha uma placa escrito pare não pare, pare não pare, e não paramos.
Porque no fundo, lá no fundo daquele buraco de vida asfaltada
e bem vivida, tinha uma mancha escura, opulenta,
que sangrava e reluzia um fio azulado maciço e oco. Muito mais oco que maciço; incrivelmente rochoso. O lapidamos por décadas,
as duras patas, até se tornar um diamante sem brilho, mas muito duro.
Oco, duro, maciço, rochoso e escuro como a palma da mão
daqueles que sempre esquecem e molham as mãos.
Da fonte dos bandeirantes agora jorra o pó de cinzas desse diamante de chumbo; pétalas de nepalm caindo, a conta gotas; nunca olhe para cima.
A cada dois dias o pó cai na caixa d'água de toda cidade e contamina;
entra pelo quintal das casas, se você pisa o pé afunda,
abrindo fendas grandes que mais parecem um monstro de muitas patas.
Sorte de quem mora em apartamento. Dizem que lá o pó só gruda no parapeito e na vidraça, colorindo a janela com chamas de um anil esfumaçado.