domingo, 15 de novembro de 2015

a forma de uma cavalo

o que eu queria dizer
aquilo que é mais fácil, certo, robusto
é que toda a delicadeza
das formas que irrompem
das nossas bocas
sucumbe aos pés de todos os cavalos
que anseiam galopar
sem serem chicoteados

sábado, 24 de outubro de 2015

solitária

a carcereira vai trazer a comida daqui a pouco
meus pés estão congelados mas não tem cobertor
olho ao redor e essa cela a cada dia muda de tamanho
parece menor se tento descrevê-la com suas formalidades
parece maior se tento descrevê-la com suas histórias
a minha, que tantas vezes contei sozinha 
na escuridão dessas quatro paredes
é a história de milhares que também contaram sozinhas
na escuridão de alguma sala suja, muda, cega
não perguntaram se comíamos carne
e trouxeram uma galinha inteira desossada
com medo que matássemos um homem?
não perguntaram se comíamos carne
e trouxeram uma plateia inteira para averiguar
quantas mastigadas são necessárias
para engolir um homem inteiro
por isso estamos aqui
servindo de cobaias 
para uma pesquisa científica interplanetária
para que nossas mandíbulas se cansem de tanto mastigar
e no frio noturno de cada noite
nossos corpos se ausentem com a lembrança
de um quilo de carne inteiramente frigorífica
mastigável e mortal


quarta-feira, 29 de julho de 2015


o vaso quebrou
em mil partes
ir
re
cup
er
áveis

e as partes
que restam
partem

a noite
quem sabe
quem volta
sozinho
é só um pensamento



quarta-feira, 8 de julho de 2015

a hilda me toca sempre
de manhã
a tardinha
com seus suspiros
metafísicos
dionísicos
sua flauta
oboé
desloca
pra sempre
esse inverso de dentro
e transforma
minha estadia
em versos
pequenos
suspensos
atentos
ao seu lado

quarta-feira, 24 de junho de 2015

música para o fim do mundo

oh sim as pessoas
elas estão completamente envolvidas
andam em bandos
se sacodem na despedida
comem a cada três horas
e não sabem se pagam à vista

oh sim as pessoas
elas estão completamente divididas
fazem promessas
se distraem na avenida
tomam suco detox 
e não sabem se somem de vista



a profeta

virei profeta e não foi da noite para o dia
fiquei cega e não foi da noite
as luzes todas acesas confundem os corpos

o dia está claro
o céu estão claro
você não está

virei profeta e agora já não ouço 
as palavras jazem sozinhas ao vento
eu apenas pressinto o que um dia me disseram

que tudo está posto
que o céu está claro
que amanhã é uma ventania
e eu não vejo mais nada



terça-feira, 16 de junho de 2015





se eu atravessar a rua
d i s 
t r a i 
d a 
m e n t e
confundir
passos com emoção
certamente
teremos 
um dia de cão







segunda-feira, 4 de maio de 2015

agora não é hora

a ilusão é uma palavra bonita
a ilusão é uma palavra santa

bonita e santa são duas palavras que convencem

santa é a hora em que a ilusão se alastra 
e deixa em teu corpo um rastro de futuro

bonita é a hora em que teu corpo santificado
descansa e espera um rastro de futuro

mas agora não é hora
agora é só pra depois
depois é depois de amanhã
que amanhã bem cedo
bem cedinho
em teu corpo virá

segunda-feira, 27 de abril de 2015

fuso-horário

hoje o sol não saiu
apesar de todo o esforço da terra 
em volta do seu próprio eixo
e dos cientistas anunciando 
"estamos tentando solucionar o problema"

o sol não saiu
e sua imagem ficou congelada
na superfície de algum satélite que sobrevoa 
para capturar aquilo que a olho nu não capturamos
aquilo que a olho nu não sabemos ao certo
se é só uma imagem ou se é aquilo 
que pensamos dela, independente da imagem

não saiu
não me viu
não vai sair

hoje o sol não passa de uma ideia
a quilômetros de distância
sei que está longe que aquece
que seu raio realiza a fotossíntese
de alguma flor paisagística 
em alguma floricultura em Bangkok
mas não realiza em mim nada além 
do que um olhar que não olha
do que uma boca que não fuma


quarta-feira, 22 de abril de 2015

um sonho de cão

sonhei com você essa noite
estava sem patas
mas o corpo era o mesmo
juro que era você

sonhei e no meio do sonho
ouvi seu latido abafado 
de luto pela minha ausência

você estava sem patas
eu tentava a todo custo colá-las 
para que você pudesse voltar
a caminhar como antes


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O adeus da gaivota

Não é preciso mapas cartográficos para que possamos enxergar de perto
as bacias hidrográficas que se misturam e se colidem nesse rolo de papel. 
(Desdobro o mapa em cima da mesa. Vejo linhas, viagens, carros, enchentes. 
Vejo, sobretudo, meus pés, submersos em algum lago longínquo, na Índia.
Nunca fui pra Índia. Mas é lá que vejo agora meus pés mergulharem).

Não foi preciso anos de experiência em calotas polares, geleiras, lençóis freáticos, rios e lagos e oceanos para aprender a desenhar um rio com peixes como fiz aos sete anos. Na época, os peixes saltavam para fora do rio e tinham todas as cores do mundo. Naquela época, a água doce representava 2,5% de toda água consumida no planeta. Hoje ela representa 2,5% de toda água consumida no planeta. A mesma água que correu nas veias de Luzia hoje corre nas minhas. Mas muita mais ferrosa.

Não é preciso saber mas é melhor sabê-lo. Que toda água da chuva que cai nas proximidades ou num raio de até 200 metros da minha casa entra pela calha e se acumula num cilíndrico volumoso até despencar por inteira pela corrente enferrujada que prendi no alto do telhado até o chão, para que a mesma percorresse esse caminho, sem sobrecarregar a calha. 

Fecho o mapa e com ele, toda a água desenhada na superfície em escalas reduzidas se movem e me banham com ondas calmas em algum lugar longínquo, na Índia. Movo meus pés para o alto mas eles já estão crivados, submersos pelas correntes frias do lago. No alto, uma gaivota diz adeus.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O banho

Fecho a porta sem pressa, virando a chave no sentido horário. Já é tarde.
Olho para baixo e avisto os meus pés. Estão frios como o azulejo frio.
Passo os olhos rapidamente pelo espelho. Pego um pente, me penteio: para trás, para frente, para trás. Faço um coque. Olho novamente meus pés. Estão nus.

No sentido anti-horário abro o chuveiro e um filete de água quente

escorre quase flertando com meu corpo. Olho para baixo; os joelhos
não se tocam. Não ia lavar o cabelo, mas molhou um pouco as pontas,
de forma que agora desfaço o coque, abro mais o chuveiro, elevo meus
braços na altura da cabeça e com as pontas dos dedos, totalmente arqueadas,
massageio suavemente o couro cabeludo até sentir que todos os fios
estão submersos de água, suavemente até sentir finalmente que todos
os meus fios estão submersos. Daí desligo. Passo o xampu. Espero um minuto.

Cortei os cabelos. Faz quinze dias que cortei os cabelos. Agora,

no banho, lavá-los fica mais fácil, pois só elevo meus braços
na altura da cabeça fazendo os movimentos circulares de outrora, mas
tudo em dois minutos. Às vezes esqueço e coloco mais xampu que
o necessário; às vezes esqueço e não coloco nada. Quando isso acontece,
o cabelo fica mais difícil de pentear. Aí prendo e faço um coque.

Não gosto de abrir a porta logo após terminado o banho. Gosto de aproveitar

o vapor quente que fica, mantendo o ar temporariamente aquecido em volta.
Dilatando os poros da pele. Amaciando cada camada da minha epiderme.
Até o vapor se dissipar completamente quero ter a certeza de que todos
os meus poros estarão dilatados para receber alguma coisa. Quero sentir que
precisam receber alguma coisa. É quando eu abro a porta, abruptamente,
e uma corrente de ar mais fria passa e resseca meu rosto com o seu deslize.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

São Paulo secou

Da fonte dos bandeirantes jorram águas oitocentistas,
salubres, sonâmbulas. Ouço daqui os cavalos a galope,
que vieram arrastados pelos empreendimentos lá de longe;
relincham e resistem à queda d'água. Quem beber dessa água 
vira monstro caolho de muitas patas, muitas patas coxas 
de muito, muito, sempre muito. O mundo é sempre muito 
e nos surpreende com seu golpe de machadinhas 
de múltiplas pernas e braços. Meu coração que não é de papel relincha, 
se esquiva e se abaixa, tenta sorver do asfalto essa última gota 
que caiu do céu, mas não é chuva. Não é de hoje. É sempre muito.

Agora engole o lodo viscoso da cidade submersa pelos rios
que um dia todos navegaram. Eu naveguei, tu navegastes, 
e caímos bem aqui na beira do precipício; 
tinha uma placa escrito pare não pare, pare não pare, e não paramos. 
Porque no fundo, lá no fundo daquele buraco de vida asfaltada
e bem vivida, tinha uma mancha escura, opulenta,
que sangrava e reluzia um fio azulado maciço e oco. Muito mais oco que maciço; incrivelmente rochoso. O lapidamos por décadas,
as duras patas, até se tornar um diamante sem brilho, mas muito duro.
Oco, duro, maciço, rochoso e escuro como a palma da mão 
daqueles que sempre esquecem e molham as mãos.

Da fonte dos bandeirantes agora jorra o pó de cinzas
desse diamante de chumbo; pétalas de nepalm caindo, a conta gotas; nunca olhe para cima.
A cada dois dias o pó cai na caixa d'água de toda cidade e contamina;
entra pelo quintal das casas, se você pisa o pé afunda,
abrindo fendas grandes que mais parecem um monstro de muitas patas.
Sorte de quem mora em apartamento. Dizem que lá o pó só gruda no parapeito e na vidraça, colorindo a janela com chamas de um anil esfumaçado.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

As coisas mais simples

ele não sabia. e por ele não saber me demorei uma semana presa num sentimento triste pensando no que seria, embora sentisse, nos últimos anos, que ele talvez não soubesse mesmo. mas depois daquele dia foi diferente. teve a virada e com ela veio a vida que tinha que recomeçar de outra maneira. sem espaços para dúvidas, medos, confusões. a virada veio como uma revelação, como um deságue, um desmanche de angústias. ele não me disse nada. virou vento mudo, distante, parado num tempo outro, olhando a roda girar. a falta das suas palavras veio como sempre, como um tiro a queima roupa porque dilacera rápido o que por dentro se corrói há mais tempo. elas sempre faltaram na hora que eu mais precisei. e olhe que não sou uma pessoa difícil, daquelas que não ouvem quando alguém chama. olhe que estou sempre atenta às vozes mais intransponíveis, de cores difusas, estreitas. se a mágoa se dissipasse no ar viraria raio luz tempestade pra derrubar pássaros, moinhos, uma cidade inteira. se ela se dissolvesse no mar ondas imensas nos devorariam. mas elas não mudam. elas permanecem no mesmo lugar, acesas, diurnas. na contradança a qual você me colocou, deixei a música tocar sem piano, clarinetes, violoncelos. só voz e afinação. a voz, tal qual o fio, não precisa de uma roda pra ter um caminho (traçado?) e fazer ecoar seu amor. ela é voz - fio solto, afinado - no momento em que se reinventa e refaz seu próprio chamado. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O fio

as moiras estão ressentidas 
sentadas no vão da escada 
as mãos seguram o queixo
o queixo segura a vida
a vida olha uma roda
que gira gira 

as moiras estão agitadas
o fio que girava girava
quase rompeu outro dia 
quando a terceira disse 
que a vida era questão 
de sorte acaso ou azar
e quis dar fim a dor 
de um pobre coitado

a segunda balançou com a cabeça
ainda não era o momento
pois a roda quem decide
quando pára
quando gira

a terceira esbravejou
com a tesoura para cima
qual fortuna que nada
sou eu quem determina
quem roda e quem fica

o fio girando girando
o destino gira junto quando a roda gira?
o fio girando rodando
o destino da gente roda roda se a roda pára?

as moiras descansam agora
mas a primeira mais jovem atrevida
colocou o fio pra fora da roda
pra fora da vida?

a terceira conhece a medida
a segunda nem desconfia
a primeira colocou o fio 
pra fora da roda
pra fora da vida?

as moiras estão ressentidas 
sentadas no vão da escada 
as mãos seguram o queixo
o queixo segura a vida
a vida olha uma roda
que gira gira 







me confundi no meio dos seus amores
eram tantas flores sem viço
amargas que fiquei plantada
no meio da estrada

com a cara meio enjoada
de quem saiu no meio da noite
e foi até a cidade comprar cigarros

mas eu não fumo
eu escrevo 
eu só bebo
eu coloquei todos os pontos nos is
e desclassifiquei
todo o amor antes dele ser

um amor
confuso demais
porque abriu janelas
pra quem você jurou que não
quem você jurou que nunca mais
e mais uma vez outro dia

com a cara meio enjoada
de quem saiu pela manhã
e o sol ofuscando tudo
tropeçou no vão da vida

mas eu não vejo
eu não fumo
eu só escrevo
eu não tenho medo




quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

vamos viver intensamente
mas antes deixa eu ser tudo
o que não posso e que não quero
me perturbar com todos os horrores
porque esses olhos sempre
podem mais

vamos viver intensamente
mas antes me deixe sem lentes de contato
eu não vou enxergar mais nada
de nada
ai de mim que sou só uma lente

vamos viver intensamente
mas antes me deixe aqui
prevendo meu próprio naufrágio
os barcos da marina já se foram
os prédios já tombaram todos
e meus braços jazem
amolecidos no espaço

vamos viver intensamente
mas antes eu quero
sangrar todos os tiros que vivi
e deixar que a porta se entre-abra
mais acesa e clara para os novos tempos
que virão que história que nada